Algumas histórias

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domingo, outubro 18, 2026

Por trás de outro sumiço

Foto para o ato de ontem. Estou sorrindo, mas por dentro há sombras.


Tem um tempo que eu não volto aqui e tem motivo. Eu estava passando por um processo particular complicado e o resultado do primeiro turno das eleições ajudou a tornar o tombo ainda maior.

Algumas pessoas da minha família sustentam discursos como: "ah, pra que sofrer com política? Político é tudo igual, tanto faz esquerda ou direita."

Pois é.

Essas pessoas me conhecem desde que eu nasci, acompanham minha trajetória como servidor público, como alguém que luta pelas políticas públicas para a cultura, especialmente para a leitura, o livro, as bibliotecas e todo o universo em torno da palavra. E sabem como a mudança de um presidente diametralmente oposto no espectro político já impactou e impacta as políticas públicas. Para o mal.

Eu detesto mencionar o nome "Bolsonaro". E não é sem motivos. Bolsonaro foi o presidente com um discurso de ódio, de diminuição de quem não concordava com ele, de falta de diálogo, de desrespeito à vida. Mas meu asco em relação ao Bolsonaro foi por sua declaração durante seu voto em favor do impeachment da Dilma. Ele homenageou um torturador. E pior, chamou o torturador de: "o terror de Dilma Rousseff". 

E tem gente que pôs o país na mão desse cara.

Meu avô, Nestor Medina, foi preso pela Ditadura. Bem no comecinho. E hoje, vejo parentes meus, pessoas que amo e que são descendentes desse mesmo homem, que votaram e continuam votando em Bolsonaro e sua prole.

E querem que eu não fique mal com isso. Que eu não fique doente.

Sim, é adoecedor o que vejo. Eu, que tantas vezes falei aos meus parentes sobre como as políticas públicas são essenciais. E que frisei que as políticas públicas para cultura são especialmente essenciais para a minha sobrevivência. Não estou falando de sobrevivência financeira. Estou falando em bibliotecas mantidas, no mercado de livros forte, na educação protegida e valorizada.

O plano de governo de Flávio Bolsonaro não propõe nada para o livro e para a leitura. Não cita "biblioteca" nenhuma vez. E as pessoas que dizem me amar vão votar em um candidato que simplesmente ignora esse universo.

E ignora de propósito. Afinal, ele tem formação. Para adquirir seu patrimônio considerável, alega que não foi apenas com o salário oriundo da carreira política. Fala que foi com honorários como advogado.

Esse homem representa uma parcela da sociedade que acredita que só quem pode pagar pode se formar como advogado. Que serviços não essenciais (e muitos dos essenciais também) devem ser custeados por cada indivíduo. 

Certo, muitas pessoas não consideram o livro essencial. Afinal, o dispositivo à mão já traz toda a informação necessária, mastigada e com argumento. Para que ler, então? Refletir? Para que ouvir o argumento diferente do seu e pensar nisso?

Eu fiz curso técnico no segundo grau. Privado. Eu trabalhei para pagar a mensalidade. Quando fui mandado embora de um dos estágios, quase perdi o curso. 

Fui ajudado, sim. Acredito que o curso me deu condições de retribuir a ajuda depois.

Fiz faculdade em uma universidade pública. Muita gente não sabe, mas a gente tinha que pagar a matrícula todo semestre. E eu tinha que parcelar o pagamento. Eram seis promissórias mensais, que eu resgatava mês a mês.

O governo do Lula não é perfeito. Tem falhas e problemas. Mas não é o governo da destruição. Não é o governo que busca negar o diálogo. Enquanto isso, o outro lado segue gritando e talvez até ganhe no grito.

Quando uma notícia sensacionalista de qualquer lado é publicada, eu primeiro olho com ceticismo. Dificilmente divulgo sem observar se é algo enviesado e distorcido. Minha opinião contra Flávio Bolsonaro é pelo que eu vi e ouvi das falas dele e de sua família. Foi depois de ler o que ele fez, sem meias verdades ou distorções.

Não vou fazer um apelo às pessoas que me amam. Eu queria. Será inútil. Este desabafo não pretende virar voto de ninguém. Não sinto que eu tenha esse poder de convencimento. Só gostaria que as pessoas que me amam pensassem bastante antes de votarem em alguém que ameaça a minha existência e declara que eu devo morrer, só por pensar diferente. 

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