sexta-feira, abril 20, 2018

Festa no Covil: sobre uma torre de palavras e sangue

Tóchtli é um garoto diferente. Confinado na fortaleza de seu pai, Yocault, o menino cresce em um ambiente adulto demais para ele. Seu pai é líder de um poderoso cartel mexicano e construiu sua fortaleza no meio do deserto. Tóchtli não conhece outras crianças, apenas pessoas ligadas às atividades ilícitas do pai, com excessão do tutor. Ele cresce sem referências infantis, apenas adultas. Inteligente e observador, o menino vai narrando as insólitas experiências ligadas ao brutal universo das drogas.
Assim tem início o enredo de Festa no Covil, de Juan Pablo Villa-Lobos. O romance é o primeiro da trilogia sobre o México e apresenta com um humor que oscila entre a inocência e a malícia infantis um dos aspectos mais violentos da realidade mexicana.
É interessante observar como Tóchtli se apresenta como um menino precoce e bem resolvido, a despeito das constantes dores de barriga, provavelmente de origem psicológica. Como uma espécie de "Rapunzel moderna, o menino vive isolado em sua fortaleza, tendo como principal passatempo colecionar chapéus e palavras difíceis. 
Outra observação que faço é a curiosa escolha do autor em dar apenas nomes astecas para suas personagens. Talvez seja um código estabelecido pelo próprio Yocault, para o caso de serem alvo de alguma investigação policial. Ou algo ainda mais complexo, como se esta fosse, de alguma maneira, uma faceta distorcida de resistência do povo mexicano. 
Considero genial a relação que o menino tem com as palavras. Cercado de "eufemismos", Tóchtli constrói sua rede de significados a partir do que observa e também através dos ensinos que recebe de um professor particular.
O romance de Villa-Lobos é envolvente, tanto pela escrita quanto pela empatia que o leitor vai estabelecendo com aquele menino solitário. Por vezes, a descrição de uma realidade cruel arranca risadas por sua fina ironia, pois Tóchtli ainda não tem condições de entender de fato o que se passa. Como exemplo, temos a cena em que o menino narra o momento em que um homem é levado à presença do chefão Yocault  espancado e depois retirado da sala, para ser executado. Tudo isso é narrado pela criança, que brinca com as palavras e fala como se de fato entendesse o que está se passando. 
Por vezes, esse olhar desprovido de experiências funciona como uma espécie de filtro, que desconstrói e expõe a crua realidade do meio em que o menino vive.
Elaborado e Inteligente, o texto de Villa-Lobos exerce um magnetismo sobre o leitor, provocando, instigando e incomodando a cada nova página. Assim, Festa no Covil é uma rica experiência de leitura sobre o exercício da força em seu estado bruto. E como essa mesma força, como um castelo de cartas, é frágil e precisa de um movimento para desabar.


Ficha Técnica 
Título: Festa no Covil
Autor: Juan Pablo Villa-Lobos 
Editora: Companhia das Letras 

quarta-feira, abril 18, 2018

Monteiro Lobato e o Dia Nacional do Livro Infantil


Quando se fala de Literatura Infantil, muitos costumam reduzi-la a um segmento menor, como se fosse uma literatura mais "fácil". Por muito tempo, os livros para crianças e jovens eram imbuídos de uma forte carga utilitária. Era necessário que os textos fossem instrutivos e edificantes.
Há 136 anos nasceu o homem que transformaria para sempre a literatura infantil. José Bento Renato Monteiro Lobato, patrono do livro infantil em nosso país, não foi apenas o percursor da literatura infantil brasileira da atualidade, mas também fundou uma nova forma de pensar e fazer livros para jovens leitores. Em sua homenagem, o dia 18 de abril passou a ser conhecido como o Dia Nacional do Livro Infantil.
Com Reinações de Narizinho, Lobato nos apresenta uma menina que surge pra aprontar mesmo. Afinal, o sentido da palavra "reinação" era travessura, brincadeira, bagunça. E Lúcia, ou Narizinho, a protagonista desse primeiro livro de Lobato, é uma menina esperta, contestadora, inventiva. Emília, sua boneca, era apenas uma muda coadjuvante. Quando ganha voz, a boneca vai lentamente adquirindo força e peso, até se tornar o principal ícone de Lobato. 
As aventuras de Narizinho, Emília e muitas outras personagens acontecem no Sítio do Picapau Amarelo. Inicialmente, o sítio surge como um lugar comum, pacato, típico cenário do interior paulista. Porém, assim como a boneca Emília, o próprio Sítio vai ganhando contornos cada vez mais fantásticos, quase míticos, a ponto de comportar dentro de si as maravilhosas terras do mundo das Fábulas e até mesmo a Terra do Nunca.
O aspecto revolucionário de Lobato não está apenas em sua literatura infantil, mas também em sua visão empreendedora como formador de leitores. Ele decidiu levar seus livros para perto de seus leitores, aonde os livros antes nunca tinham chegado. Suas edições eram ambiciosas em números de exemplares. Assim, o que poderia ser visto como uma aposta mal feita mostrou-se uma jogada que mudou os rumos de nosso mercado editorial.
Não dá para negar as polêmicas em torno de Monteiro Lobato. Sim, há passagens ofensivas e racistas em alguns de seus livros. Não há desculpa ou justificativa. É preciso marcar, contudo, que Lobato era um homem ciente de muitas de suas contradições e não deixava de evidenciá-las. Como exemplo, temos o desabafo de Emília no final de suas memórias, quando ela admite seu preconceito em relação à Tia Nastácia, fazendo um "mea culpa". 
Sei que isso não é suficiente, nem redime Lobato. Apesar disso, é importante observar que ele, apesar de ser contundente em suas ideias, não sabia ser intransigente e sempre esteve disposto a mudá-las.
Que o Dia Nacional do Livro Infantil seja sempre um marco. Não como celebração, mas como memória. Para que as pessoas não se esqueçam dos erros e acertos de Lobato e que sigam seu exemplo na ousadia, na coragem e na iventividade.

domingo, abril 15, 2018

Vídeo: Calendário, de Norma de Souza Lopes

Poema da Mestra Norma de Souza Lopes e declamado em uma tarde quente, na Praça da Estação, Belo Horizonte, Minas Gerais.


Para saber mais sobre a Norma:
http://normadaeducacao.blogspot.com.br/http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=300em

sexta-feira, abril 06, 2018

Terras Secas: Um árido conflito


Arthur Boaventura está decidido a nunca mais escrever. Isso, às vésperas de receber uma premiação por sua obra poética.
Solteiro, na casa dos trinta, ele é um conceituado professor universitário.  Construiu uma sólida carreira acadêmica em literatura. Ainda assim, ele detesta tudo o que escreve.
Assim começa Terras Secas, romance de estreia da escritora mineira Paula Peregrina. Ela situa seu protagonista em Belo Horizonte, capital mineira, mas bem poderia estar em qualquer metrópole do mundo. Arthur é o retrato do homem contemporâneo: fragmentado, solitário, paranoico, e eternamente insatisfeito. Ele tem uma vasta bagagem cultural, mas isso apenas contribui para torná-lo mais vazio e confuso.
Ao retornar da premiação, Boaventura fica preso dentro do elevador do prédio em que mora. Acaba adormecendo. Ao acordar, descobre-se em um cenário inusitado: um céu violeta sem nuvens sustenta duas esferas opacas. Uma é de cor laranja; já a outra, prateada. O chão que se estende a perder de vista é amarelado e seco, de uma secura rachada e agreste. Ao longe, uma árvore torta cujos contornos do tronco são distorcido e as folhagens, difusas.
A partir daí, começa a extraordinária jornada de Arthur Boaventura. Ele não sabe mais quem é. Pior: não tem mais emoções. Tenta, contudo, entender onde está e a lógica desse mundo onírico. Trata-se de um ambiente hostil e enigmático que irá desafiar o protagonista e intrigar o leitor.
O texto de Paula Peregrina é agradável, acessível, a despeito da trama profunda e fantástica. Repleta de referências literárias, com destaque em Arthur Rimbaud, a obra dialoga com temas caros para as pessoas que desejam se aventurar na arte da escrita. É possível escrever em um mundo sem memória, sem tempo? As perguntas vão se desenrolando, desdobrando, desvelando. Apesar disso, às dúvidas permanecem.
Escrito de forma envolvente e bem elaborada, Terras Secas se apresenta como um romance que tanto agrada pela beleza do texto quanto pela profundidade do tema. Sem dúvida uma jornada épica para qualquer amante de boa literatura.

Ficha Técnica 
Terras Secas
Paula Peregrina
Editora do Pandorgas

quarta-feira, abril 04, 2018

Vídeo: A MENTIRA DA VERDADE - Joaquim Almeida


Uma narrativa da criação do mundo. Os opostos não precisam ser inimigos. Porém o que aconteceria se a Mentira declarasse guerra contra a Verdade? Narrativa belíssima que compartilho agora com vocês. O texto e os desenhos são de Joaquim de Almeida. Editora: Fundação SM.

domingo, abril 01, 2018

Pantera Negra: Wakanda para além das telas

Ao final do filme "Pantera Negra" meu rosto estava coberto de lágrimas. Voltei-me para minha esposa e brinquei: "só eu pra chorar em final de filme de super-herói".
Mas meu pranto, embora forte e patético, não era melodramático, não tinha as lágrimas emotivas de um alívio catártico. Eu chorava por Wakanda, por esse sonho maravilhoso, esse mundo em que a potência dos povos africanos não é tolhida, massacrada ou usada. Chorei por achar que Wakanda seria apenas sonho.
Foi então que, depois de ler um pouco mais sobre o filme e, principalmente, depois do artigo O filme Pantera Negra e a questão da ancestralidade africana, constatei que Wakanda é sim viva e real. Ela se realiza no talento do diretor e roteirista, do elenco de talentosas pessoas, da cultura ancestral retratada na tela. Wakanda é também a diáspora do povo afrodescendente, sua resistência cultural, seus valores religiosos, tudo num substrato que sobrevive e cresce, como uma erva do coração.
Então eu chorei novamente, mas agora era um choro diferente, uma comoção e uma alegria, ao saber que Wakanda não é utopia. É ideal, mas também é real. Wakanda está em guerra. Um dia, espero, ela se erguerá, soberana, para contar uma outra história. Aquela que os colonizadores tentaram - e ainda tentam - apagar.