sexta-feira, outubro 12, 2012

A história da história - O castelo da torre encantada

Como seria a história antes da história? O conto antes do conto? É senso comum que, quando alguém começa uma narrativa com o famoso "Era uma vez", estamos diante de um conto de fadas. O que dizer então de uma história narrasse acontecimentos que ocorreram bem antes de seu próprio começo? 

Assim, Lia Neiva tece de forma magistral essa narrativa mágica e bem-humorada, sobre um castelo sombrio, com sua torre sinistra, dominado pelo malévolo conde Trevus. Nesse ambiente terrível vive uma linda jovem, sobrinha do conde, apelidada de Princesa Pomar. Todos os súditos do conde acreditam que ela seja vítima das maldades mais torpes por parte de seu tio. Dessa forma, o povo vive sob a tutela do medo de que a alma maligna de Trevus seja insaciável em impiedades. Esse cenário ameaçador, porém, está prestes a mudar drasticamente.

O castelo da torre encantada é uma bela homenagem aos contos de fadas. Com uma escrita poética, repleta dos maneirismos característicos às histórias de magia, Lia Neiva guia o leitor graciosamente por esse cenário que passeia entre o épico medieval e o cômico infantil. Sua trama é equilibrada, concisa e rápida, sem percalços desnecessários. Ainda assim, essa rapidez não prejudica o leve ar de atemporalidade que dita o tom da história.

É importante também destacar as ilustrações de Elizabeth Teixeira, que casam perfeitamente com o tom do texto, num traço que sugere algo barroco por sua irregularidade, garantindo também uma certa ternura bastante marcada nas feições das personagens.

Há um segredo presente no final da narrativa, que sugere que esta história na verdade relata os fatos anteriores a um dos mais famosos contos de fadas. Uma brincadeira jovial que certamente agradará os leitores amantes do gênero, tornando O castelo da torre sombria não somente uma bela e memorável homenagem aos contos de fadas, mas também a garantia de boa literatura infantil.

Ficha Técnica
Título: O castelo da torre encantada
Autora: Lia Neiva
Ilustradora: Elizabeth Teixeira
Editora: Ediouro
ISBN: 8500000635
Ano: 1996
Páginas: 32

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/266693

quarta-feira, outubro 10, 2012

Alma Quebrada - Parte II

Ele sempre gostou de palavras onomatopaicas. Ou melhor, palavras que em sua pronúncia quase sugeriam uma onomatopeia. Atabalhoamento, por exemplo, que sugere alguém tropeçando sobre os próprios pés. Ou estardalhaço, com seu som de algo se estraçalhando, uma palavra repleta de estilhaços.

E foi um estardalhaço que ele ouviu, o som terrível que o arrancou de uma realidade, lançando-o em outra. Estivera sobre uma motocicleta, pilotando calmamente, respeitando os limites de velocidade até que a quina de uma porta interrompeu seu caminho.

Abriu os olhos, ou melhor, o único olho são. Paralisado pelo choque, conseguia distinguir o asfalto além da viseira destruída. Viu também um filete de sangue grosso escorrendo em sua frente, enquanto percebia que não conseguia ver nada pelo olho direito. Naquele momento, pensou: "Pronto, perdi um olho e virei pirata."

Coisa ridícula para se pensar no momento de um acidente. Sentiu a resignação inundá-lo, enchê-lo de como um caldo gelado. Logo as pessoas já se aglomeravam sobre ele, perguntando se ele estava bem, pedindo para que ele ficasse quieto, deitado. Respondeu fracamente quando perguntaram se estava consciente, se sentia dor. Lentamente ele tomava consciência de sua situação. Temia mexer-se e piorar seus ferimentos, talvez até a coluna estivesse comprometida. Por isso, manteve-se parado.

A emergência chegou, os paraméticos o examinaram rapidamente. Foi imobilizado. Ao ser erguido na maca, sussurrou: "eu tô passando mal..." e logo que ouviram a queixa, os paramédicos inclinaram a maca. O vômito veio em borbotões, enquanto ele via uma floresta de pernas das pessoas que o cercavam, observando-o placidamente. "O que vocês querem?" pensou. "Aqui não é a porcaria de um espetáculo. Vão embora, eu não sou um espetáculo"...

segunda-feira, outubro 08, 2012

Aqueles que não morrem - Parte I de IV

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No dia 20 de Auluman, no ano 823 da Era dos Reinos, de acordo com os registros da Companhia, um destacamento de 284 almas partiu da cidade real de Sathal. Seridath e seu servo, Aldreth, estavam entre esses homens. O Senhor de Dhar deu o salvo-conduto para que uma força militar de natureza particular pudesse cruzar seu território. Desse destacamento, contavam-se cento e cinqüenta guerreiros, setenta e cinco arqueiros, trinta artilheiros, todos anões, um andarilho, três capitães e um arauto. Os restantes eram cozinheiros e guiadores dos dez carros de bois, que levavam mantimentos e flechas sobressalentes, além de lonas de barracas e outros equipamentos necessários.
Seguiam pela estrada real rumo ao norte. Os anões compunham a artilharia pesada. Conhecedores antigos de feitiços próprios do seu povo, eram peritos em explosivos. Sempre andavam com parafernálias que usavam para fabricação de esferas que explodiam ao serem lançadas. Para manterem o segredo, somente anões usavam esses aparatos. Carregavam jarros escuros, cheios de um líquido por eles criado que, ao ser misturado a outros ingredientes, produziam esse poderoso explosivo. Naquelas terras, era senso comum que procurar briga com um anão seria uma coisa pouco sensata de se fazer.
A infantaria marchava em blocos de vinte e cinco homens, perfilados e bem organizados, flanqueando os carros com os suprimentos. Seridath marchava entre eles, um simples soldado, coberto por uma cota de malha rude e uma túnica branca feita de lã de péssima qualidade e infestada de pulgas. A espada negra, Lorguth, pendia ao seu lado, embainhada, coberta pelo largo escudo onde a insígnia da Companhia, uma torre cinza encimada por uma chama de azul intenso, estava estampada. O elmo de ferro era simples, aberto, tendo uma fina placa de metal como proteção nasal. As espadas dos outros soldados não eram mais compridas que a de Seridath, embora nenhuma delas tivesse a aparência amaçadora de Lorguth.
Havia três capitães encabeçando a infantaria, embora Seridath não se lembrasse sequer dos nomes deles. Como os escudos tivessem retoques em cores vermelhas nas bordas, isso bastava para identificá-los. Nenhum daqueles homens, nem mesmo o velho Urso Pardo, tinha montaria. Os quatro cavalos que Seridath havia conseguido na luta contra os bandidos foram todos vendidos em Sathal, na véspera da partida.
Os arqueiros ladeavam o exército, vinte e cinco em cada flanco, estando divididos em grupos de cinco. Aldreth, apesar de seu temperamento tímido, deu-se muito bem com os outros arqueiros. Seridath, por sua vez, permanecia em seu isolamento arrogante. Evitou conversas triviais entre os seus companheiros de armas e negou-se participar de seus jogos de dados ou cartas. A marcha foi forçada, estavam no meio do outono e chovia com certa freqüência, o que dificultava o avanço do destacamento. Apesar das condições adversas, seria errado afirmar que não foi uma viagem agradável.
Dhar era um reino belo, com vilarejos pitorescos. Era uma região de planícies cercadas por montanhas aprazíveis e repleta de bosques tranqüilos ladeando a estrada real. Tanto ao norte quanto oeste, o terreno se tornava mais acidentado, com as colinas tornando-se montanhas de vales profundos, porém largos e apinhados de ricos vilarejos. A oeste, o terreno ficava cada vez mais montanhoso até formar uma cordilheira que demarcava a fronteira entre Dhar e Belgamon. No inverno, as montanhas agora cinzentas ficavam brancas. A leste, a planície estendia-se, repleta de fazendas, até uma extensa depressão pantanosa, onde começava o reino alagado de Marzan. A região limítrofe ao pântano delimitava os dois reinos.
Passavam por aldeias que recebiam alegres os homens da Companhia. Os meninos eram sempre os primeiros a encontrar o exército e voltavam correndo com a notícia. As moças bonitas largavam seus afazeres à beira dos rios ou fogões e corriam, juntando-se em bandos risonhos, gracejando com os soldados. Se a noite já estava próxima, Urso Pardo ordenava que as tendas fossem estendidas em alguma campina adjacente às casas dos camponeses. Uma trupe de artistas e um bando de mercadores haviam aproveitado a viagem do exército, ganhando proteção de graça. Montavam então uma pequena feira no centro da aldeia e à noite era certo que haveria alegres apresentações e danças animadas. Os soldados enchiam a única taverna do lugar, alguns já gastando em bebida o soldo que não haviam sequer recebido.
O exército seguiu assim durante seis dias. Almejavam chegar a Arnoll, a última grande cidade do norte, ainda no décimo dia. Mas, tendo vencido mais da metade do caminho, foram penetrando em um território que parecia pertencer a outro mundo.

Continua...

sexta-feira, outubro 05, 2012

Viagem e Vaga Música - uma jornada de sensibilidade

Para Ana Luiza de Freitas Rezende


O amor desenganado, a saudosa canção do viajante, o mar. Estes são alguns temas que a obra dupla Viagem & Vaga Música, de Cecília Meireles, aborda com tanta beleza e propriedade.

Originalmente publicados como dois livros distintos, ambos foram posteriormente reunidos em um único volume, por conta da afinidade tanto nos temas quanto nos poemas, bem como na construção estética.

Este é um livro melancólico, embora não seja tristonho ou pessimista. A linguagem é leve e limpa, dedicada à construção de imagens oníricas de paisagens onde o mar está quase sempre presente.

Como o próprio título indica, muitos poemas do livro irão falar da ideia metafísica da viagem, como uma alegoria do viver, da condição eterna do sujeito de estrangeiro na vida, saudosista, aturdido diante do absurdo da existência e repleto de desesperança fatalista, sem grande interesse no fim da jornada, mas no seu percurso. Apesar desse tom tristonho, a leveza e o lirismo de Cecília Meireles concedem à obra uma cadência tão singela, como a música de uma caixinha de joias, de maneira que a melancolia se transforma em serenidade através do encantamento proporcionado pelas belas imagens criadas pela poeta.

Dessa forma, Cecília Meireles retrata em seus poemas com muita propriedade e sensibilidade, de forma certamente bela, os temas mais caros à poesia. Uma jornada melancólica, mas certamente bela.

Ficha Técnica:
Título: Viagem & Vaga Música
Autor: Cecília Meireles
Edição: 1
Editora: Nova Fronteira
ISBN: 8520918476
Ano: 2006
Páginas: 189

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/9235

quarta-feira, outubro 03, 2012

Alma Quebrada - Parte I

Os raios de sol eram mortiços aquela tarde e ele sentiu que aquele desarranjo tão característico ao crepúsculo entrava lentamente em ressonância com seu próprio desarranjo interno.

Balançava a cabeça, tentando afastar os pensamentos funestos. Tudo corria bem. Há tempos não se sentia tão realizado. Seguira por outro caminho, algo bem mais condizente com sua alma tão lúdica e afeita ao jogo de palavras. Ao olhar-se no espelho, quase não reconhecia o rapaz que ao seus olhos parecia tão bonito. Sorriso aberto, olhar confiante, de alguém que vê seus desejos aos poucos tomando de assalto a realidade.

Há tempos ele almejava sair do labirinto digital no qual estivera por tanto tempo enredado, cansado de sistemas, circuitos, códigos e programas. Cansado da estupidez de usuários, da tirania de gerentes e superintendentes, da incompreensão dos colegas. Afinal, nenhum deles entendia a razão de um técnico em informática ter cursado Letras.

Agora, seu tempo era outro. Ou melhor, aquele era seu tempo. O computador tornou-se apenas acessório. Sua ferramenta de trabalho tornou-se a Literatura. Agora podia dedicar-se à amante com as atenções de esposa, um retorno ao seu primeiro amor.

Para ele, apenas agora assumia as rédeas de sua vida. Casa, emprego, veículo, todos conquistados com seu suor. Permitiu-se um pouco de orgulho. Solteiro, tomou coragem para flertar com mulheres em barzinhos, coisa que nunca fizera antes. Engatinhava na arte da paquera, assim como na da auto-estima.

Então porque sentia-se tão vazio? Seu esforço não parecia pertencer-lhe. Sentia ter roubado o que era de outro e essa sensação ficava ainda mais poderosa naquele fim de tarde. Não imaginava ele que seu desarranjo logo não se limitaria às regiões internas de seu ser.


segunda-feira, outubro 01, 2012

O Andarilho - Parte II de II

Ir para O Andarilho - Parte I de II


Seridath arregalou os olhos, surpreso com a declaração do velho. Teria que aceitar as suas condições se quisesse lutar. Deu um gole no copo de cerveja e engasgou. Por fim, pigarreou e voltou a falar, resignado:
Velho, me inscreva essa "força". O rapaz aqui ao lado também irá participar. Ele é um excelente arqueiro.
Seridath vira Aldreth usar seu arco enquanto caçavam, durante a viagem a Dhar.
Transmitirei teus interesses aos meus superiores – respondeu o velho, com um suspiro. – Estou ignorando o protocolo por tua causa... Amanhã terás tua resposta. Se admitido, deverás passar pela prova de habilidade. Será necessário conferir se conheces as vozes de comando.
Dando a conversa por encerrada e sem esperar a concordância de Seridath, Urso Pardo levantou-se. Parecia cansado e saiu da taverna com um andar vagaroso, apoiado em seu rústico bordão. Seridath dispensou Aldreth, deixando com o garoto duas moedas de cobre, para que ele desse um jeito de arranjar o jantar, mesmo com aquela quantia miserável. Enquanto o cavaleiro se acomodava em seu cubículo, para mais uma noite sob os cobertores, seu pajem enfrentava o clima outonal no estábulo.
No dia seguinte, quando a noite caía, Urso Pardo compareceu ao novo encontro, como prometido. Dessa vez, não havia cerveja e Aldreth estava silencioso ao lado de seu amo.
E então? – perguntou Seridath, enquanto o velho tomava seu lugar na mesa.
O Conselho decidiu encerrar o recrutamento.
Seridath não escondeu sua consternação.
Não entendo – disse. – Já falei que tenho experiência. Não haverá necessidade de gastar tempo comigo em treino. Apenas com o rapaz, e ele aprende rápido.
Mas já é muito para arriscarmos – advertiu o velho. – A situação mudou. Recebemos hoje um mensageiro. Há rumores de ameaças maiores, correm boatos de que Quiriath-Mon está sendo reerguida. Deveremos partir o quanto antes.
Vocês, dessa "Companhia", sempre correndo atrás de rumores e boatos! Pelo que eu sei, caro andarilho – Seridath fitou Urso Pardo com raiva. – Essas histórias não passam de lendas. Sei muito bem o que a palavra Quirite-Mon faz o populacho daqui estremecer. Mas para mim, os Ascos podem nunca ter existido, bem como Helena e seu Império de Gridsmar!
O velho andarilho ergueu os olhos em censura na direção de Seridath, como se o jovem cavaleiro tivesse proferido uma grande blasfêmia.
Cautela, rapaz, cautela! – advertiu em voz baixa. – Estamos longe do reino de Renandart, mas mesmo aqui neste país os homens veneram Helena como uma deusa!
E alguns também veneram os Ascos – rebateu Seridath.
Por pura loucura, meu jovem, ou imprudência. As forças da Luz já provaram seu poder sobre as hordas das Trevas.
Mas, se os boatos sobre essas "hordas das Trevas" estiverem certos, não serão burros para desperdiçar uma espada que seja.
Não zombes de minha paciência, estrangeiro – o olhar antes amigável do velho deu lugar a uma expressão implacável. – Tua impertinente acidez me irrita. É loucura zombar de quem carrega o Orgulho em seu nome. Lembra-te disso.
Seridath calou-se, empertigado. Olhou para ambos os lados. Nem mesmo ele conseguia entender o porquê de tanta obstinação por fazer parte daquele grupo de lunáticos.
Olha, velho – retornou o cavaleiro, inclinando-se levemente sobre a mesa –, eu só quero um lugar no exército e um uniforme. Não me importa se vocês querem andar na campina caçando fantasmas ou o quê. Quero apenas lutar. Peço que ao menos não me negue isso.
O andarilho inclinou o corpo para trás, apertando mais as sobrancelhas, seu rosto cada vez mais sério. Por fim ele suspirou.
Tudo bem, rapaz. Procurarei mais uma vez ir contra o protocolo e convencer os membros do Conselho. Advirto contudo que não há como contrariar o Grande Andarilho, Serpente Flamejante. Caso ele permita, tu e teu pagem serão membros da Companhia, mas não haverá espaço para essa tua altivez. Aceitarás o mais humilde posto que o Conselho delegar-te.
Quando o exército partirá? – perguntou Seridath, como se já fosse um empregado da Companhia.
Em breve. Estamos nos preparativos finais. Creio que no dia 19 estaremos prontos, no mais tardar dia 20. Caso sejas admitido, é bom estares pronto em nossos alojamentos antes da data.
Ao ouvir as últimas palavras do andarilho, Seridath assentiu, taciturno. Era verdade que o pagamento era escasso, mas o rapaz tinha toda certeza que aquele iria ser dinheiro fácil. O negócio, afinal, teria que valer a pena. Para todos os efeitos, ele era agora um dos guerreiros da Companhia.


Continua...