sexta-feira, setembro 28, 2012

Retalhos - Sensibilidade e memória

Um mergulho em pedaços de memórias alheias, com suas cargas de beleza e feiura, faz a leitura de Retalhos, de Craig Thompson, uma experiência realmente compensadora. Mais que uma graphic novel, esta se constitui um relato vívido e belo sobre família, religião e, sobretudo, escolhas.

Narrado de forma fragmentada e irregular, como uma colcha de retalhos deve ser, o trabalho de Craig Thompson denota principalmente uma sinceridade quase desconcertante. Seus personagens são francos, diretos, sem meias-palavras. Tanto a crueza quanto os momentos da mais sutil beleza são mostrados de forma explícita, mas nunca banal. O narrador, inserido de tempos em tempos, além de reforçar o caráter intimista da história, também funciona como fio condutor, que vai manter unidos os quadros que formam essa grande narrativa.

Craig conta através de sua graphic novel os períodos mais importantes de sua juventude, considerados cruciais para a formação de sua personalidade adulta. Criado no seio de uma família cristã em uma cidade do interior do estado de Wisconsin, o jovem Craig cedo se depara com mensagens fortes sobre culpa, retidão e inferno. Impressionado e buscando uma saída contra a condenação evangélica, o garoto desenvolve uma profunda religiosidade, reforçada ainda mais por seu caráter introspectivo e sua alma sensivel de futuro artista.

Assim, gradativamente, Craig vai descobrindo a hipocrisia religiosa, tanto nas instituições quanto nas pessoas que as reforçam, na ignorância "abençoada" de muitos fieis, na infelicidade decorrente da mensagem truncada e floreada de muitos grupos religiosos. Seu trabalho, apesar do tom crítico, é desprovido de cinismo de alguém amargo com a vida, que se considera "enganado" pelo antigo fervor evangélico. Craig Thompson cultiva o tom de uma pessoa que conseguiu resolver seus dilemas internos e apaziguar a própria alma, entendendo a importância que sua religiosidade teve em sua vida e aceitando seu ceticismo com naturalidade. Como destaque nesse processo está seu relacionamento com Raina, uma jovem com quem desenvolve uma amizade que rapidamente caminha para uma paixão forte e transformadora. Através dessa paixão tão intensa e pura ele desmistifica o pecado, encontra a beleza que transcende a moralidade religiosa e alcança a maturidade.

Dessa forma, sua obra soa ainda mais bela e profunda, carregada de uma poesia simples, mas repleta de maneirismos em que os exageros surgem com tal graça que se justificam na construção de imagens líricas em sua plena medida. Uma jornada ao passado, uma forma de refletir o presente, Retalhos é certamente um dos trabalhos mais belos, uma obra de sensibilidade ímpar.


Fica Técnica
Título: Retalhos
Autor: Craig Thompson
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2009
Páginas: 592
Tradutor: Érico Assis

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/29153

quarta-feira, setembro 26, 2012

Perfil Leitor: Mauro

Conheci o Mauro aqui na Biblioteca onde trabalho. Ele tem todo aquele jeito bonachão e expansivo de quem deseja uma amizade logo no primeiro encontro. Sorriso aberto, aperto de mão forte e um estilo despojado deixam você à vontade logo que começa a conversar com ele.

Mauro é um dos leitores mais assíduos (e presentes) da Biblioteca. Há tempos ele compartilhou comigo uma crônica em que faz considerações sobre a leitura e literatura. Depois de lido, fiquei por dias a fio pensando na possibilidade de que o texto pudesse ser postado aqui no blog.

Levei a ideia ao Mauro e ele prontamente autorizou a reprodução do texto. Fez mais: enviou-me a versão digital, eliminando a tarefa de ter que digitar tudo. Deixo aqui então meus agradecimentos ao Mauro. E suas palavras.


UM BREVE COMENTÁRIO SOBRE O LER


Como é vasta a literatura atual. A todo instante novos livros são editados, florescem novas obras, nascem novos talentos literários, viajam em nossas mãos pérolas dos mais variados lugares e pássaros do mundo. Cá já temos em mãos maravidas que nos leva, a mundos imaginários e prazeroros. Estilos nascem e renascem, modernizam-se nas epopéias e dispopéias cotidianas. Temas e motivos opostos/paralelos desenvolvem um arquitetura do conhecimento e do prazer, da beleza do pensar e do flutuar. Imaginativos ou ortodoxos embrenham-se em tramas, relatos, contos, poemas, histórias e estórias. Caminhos diversos percorridos emocionados e atentos nas trilhas das letras, palavras, frases, parágrafos..., juntam-se ensinamentos e desensinamentos, choros gargalhdas, alívio e angústias, tristezas e felicidades, começo e fins. Como não darmos reparo a expansão mercadológica editorial. Como não sermos tocado pelas mudanças da modernidade. Se lê e escreve muito, mais do que outrora. Internet? Sim. Do anonimato ao conhecido, do msn as redes sociais, do e-amil aos sites. Nunca se produziu tanto e nunca se colocou a mosta tanta dessa produção. O ostrário das edições, os grãos de areias jogados ao acaso germinam ou não, dentro de conchas calcificadas, em frutos perolais. Pérolas únicas trazendo sua singularidade, seu toque pessoal, o seu universo próprio. Incorpora em seu locus o preparar pessoal do verbo. E num sublime legado deste universo criador, encontram-se aquelas ditas negras. Essência diferenciada da mesma produção, postulam-se em nirvana, são o que são por ser, bastam-se em si própria, fadadas ao nosso deleite e delírio. Muitos são esses entes mágicos que espiritualizam as florestas da mente e dos sonhos. Como vereditar sobre uma única espécie colocando as demais em baús do esquecimento. Como não dissertar sobre “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “A Caverna”, “Ensaio sobre a Cegueira”, “Ensaio sobre a Lucidez”, “As Intermitências da Morte” de um José Saramago, morto, mas cada vez mais vivo. Como não se a criançar, com um Lobato de “Reinações de Narizinho”, “O Sítio do Picapau Amarelo”, “O Saci”. Como não ganharmos asas e alarmos para fora de gaiolas douradas com um tal de Rubem Alves, Ziraldo ou Maurício de Souza. Como não nos tornarmos simbolistas diante de “O Códifo Da Vinci”, “Anjos e Demônios”, “O Símbolo Perdido”. Nos emocionamos e arrepiamos daitne de Carlos Drumond de Andrade, Cecília Meireles, Olavo Bilac, Fernando Pessoa + Alberto Caeiro + Ricardo reis + ..., Mário Quintana, Cora Coralina. Nos rendemos a alquimía de Paulo Coelho. Abrimos nossos olhos a realidade de “O Caçador de Pipas”, “O Livreiro de Cabul”, “A Cidade do Sol”, “Neve”, “A Princesa”. Como não escutarmos o apelo de “A Doçura do Mundo”, “A Distância Entre Nós”. Como não flutuarmos na leveza e sutileza de “A Menina que Roubava Livros”, nas desventuras das “Travessuras da Menina Má”. Como não historíarmos em “1808”, “Ramsés”, “A Pedra da Luz”. Como não ficarmos atentos aos mistérios de “Santuário”, “O Caçador de Conchas”. Como não criarmos hiatos nas reflexões de “O Leitor”. Como não reconehcer o infinito na finitude das obras. Todas produzidas, sem exceção, são pérolas negras, impressas em nossas almas através de prismas pessoais relfetidas em nossas íris.
Mauro José Teixeira Leite
mauro.leite@pbh.gov.br

segunda-feira, setembro 24, 2012

O Andarilho - Parte I de II

Ir para Seridath - Parte II de II

A taverna fervilhava de gente naquela noite. O ir e vir dos fregueses, toda aquela movimentação, deixava Aldreth atordoado. O olhar do rapazinho passeava, num misto de curiosidade e temor, dos barbudos e ruivos bárbaros do oeste além-mar aos inquietos e explosivos anões. Havia na taverna pelo menos uns três daqueles pequenos seres, habitantes de Nyrbern, terra árida situada bem a sudeste. Seridath mantinha-se calmamente sentado na mesa que escolhera, no fundo do salão, tendo o capuz a envolver seu rosto em sombras. Observava silenciosamente o entra e sai de pessoas da taverna. Estava limpo e barbeado, seus cabelos aparados de forma mais regular, embora ainda estivessem um pouco compridos, atados em um rabo de cavalo.
Apesar de estar mais apresentável, o cavaleiro mantinha aquele seu habitual ar de ameaça. Sempre que voltava seus olhos ao amo, Aldreth sentia um calafrio, pensando se talvez não seria melhor fugir logo que uma oportunidade surgisse. Seridath, por sua vez, fixava os olhos frios e brilhantes no o garoto, como que afirmando saber o que Aldreth pensava. E a alma do rapaz gelava com esse olhar.
Fazia três dias que os dois estavam em Sathal, capital do reino de Dhar. Era início do mês de Auluman, e o outono ia pela metade. Conforme Seridath ficou sabendo pelo dono da taverna, aquele era o ano 823 da Era dos Reinos, no nono século após o fim da Era da Rainha.
Seridath e seu pajem se conheceram em Khir, o decadente reino que fazia fronteira com a cordilheira de Gaeramont. O cavaleiro queria empregar sua espada, alistar-se em um exército mercenário. Aldreth contou-lhe que o rei de Khir, embora em constante guerra com Nébria, ao sul, não tinha condições de pagar soldo a seu exército. Seridath então decidira partir rumo a um país mais rico.
Em uma viagem tranquila, haviam deixado Khir, atravessando Helgara e Belgamon, até alcançarem as campinas férteis de Dhar e a sua capital de torres brancas, Sathal. O cavaleiro acreditava que os deuses lhe sorriam já que, ainda antes de atravessar os portões, soubera que havia emprego para homens hábeis com arco ou espada.
Seridath se hospedara naquela mesma taverna, onde recolhera informações. Soubera de um grupo de excêntricos velhos que estavam organizando uma força militar. Aldreth, que ficara dormindo no estábulo com os cavalos, foi enviado pelo amo para encontrar um desses velhos.
Agora, Seridath aguardava regando sua impaciência com algumas canecas de cerveja escura. Após alguns minutos de espera, um velho de longos cabelos grisalhos e pele bem enrugada entrou pela porta da taverna. Alguns homens cessaram suas conversas e puseram-se de pé, com a mão direita sobre o peito. O velho não lhes deu atenção, aproximou-se da mesa de Seridath e sentou-se de frente ao jovem. Vestia uma manta de pele de algum animal selvagem e tinha uma espécie de touca repleta de contas de várias cores. Carregava um rústico bordão, cujo cabo utilizava como apoio. Parecia um curandeiro.
O homem cuspiu um bolo de ervas mastigadas no assoalho de madeira, fazendo Aldreth virar o rosto de nojo. Apesar da reação do garoto, o velho fitou-o com um sorriso franco. Encabulado, Aldreth baixou o rosto, encostando o queixo no peito. O velho apenas balançou a cabeça, abrindo mais o sorriso. Era um estranho homem, cujo nome era tão estranho quanto sua fisionomia. Chamava-se Urso Pardo de Orgulho Severo. Seridath despachou Aldreth, ordenando que trouxesse duas canecas de cerveja. O rapazinho pareceu aliviado ao deixar a mesa.
Tu marcaste este encontro, jovem – começou a dizer o velho, ainda sustentando o sorriso. – O que posso fazer por ti?
Sou novo na região e ando à procura de trabalho. – respondeu Seridath, calmamente – Soube que o senhor está recrutando homens para um exército. Marquei esta entrevista para averiguar as condições e decidir se a oportunidade é boa.
A surpresa de Urso Pardo foi visível diante da impertinência do jovem.
Ha, ha, ha! – riu o velho. – Onde vives, rapaz? O que sabes acerca desse suposto exército?
Sei pouco, é verdade. Apenas que um grupo de velhos, por algum motivo conhecidos como andarilhos, estão organizando uma força, dizem que para combater sombras e rumores.
De fato, esta é parte da verdade. Estamos reunindo forças, pois rumores assombram o norte destas terras.
E que rumores seriam esses, velho?
Rumores sobre uma praga que dizima aldeias ao norte. Uma praga fatal, que leva à loucura e faz o corpo da vítima andar após a morte. Até o presente momento, não houve clérigo, sacerdote ou mago que tenha alcançado êxito em reverter os efeitos dessa praga. Para lidar com tal crise, a Companhia dos Andarilhos decidiu agir.
E por que logo vocês, velhos, estão organizando esse exército? – retrucou Seridath. – E as forças do rei? Dhar, pelo que sei, é um reino forte. É certo que o rei não se agradará de um exército particular em seu território.
Não concerne a ti, rapaz, o que pensa ou não nosso rei – respondeu Urso Pardo, incapaz de esconder a crescente irritação. – A Companhia existe há séculos e seu poder visa somente a segurança do povo. Foi a mais importante força militar a auxiliar a Imperatriz Helena na destruição do exército das Trevas, marcando o fim de uma era de escuridão.
Não é o que os bardos cantam por aí – retrucou Seridath, com um sorriso torto.
Qual o sentido desta conversa, rapaz? Caso estejas interessado em participar de nossas fileiras, deves passar em um de nossos postos de alistamento. Não tenho tempo para suas leviandades. Passar bem.
Urso Pardo levantou-se de chofre. Seridath percebeu que havia exagerado em seus blefes. O rapaz adiantou-se, cortando o caminho do ancião, quase esbarrando em Aldreth, que retornava com as duas canecas de cerveja.
Sinto ter dito coisas desnecessárias, velho – disse Seridath, em tom grave. – Peço desculpas. Acredito contudo que o senhor se interessou por nós e insisto que fique mais um pouco. Que nossa despedida seja ao menos cordial.
Após alguns segundos de ponderação, o andarilho achou por bem voltar a seu lugar.
Tudo bem, rapaz – suspirou o ancião, ignorando sua caneca de cerveja –, o que mais quer saber?
Você ainda não nos disse o real objetivo dessa "força militar". Vão criar um exército da salvação para cuidar desses doentes do norte?
Eles não têm mais salvação – suspirou com tristeza o andarilho. – Iremos investigar as causas da praga e proteger aqueles que não foram tocados pela maldição.
E qual o pagamento? As vantagens?
Tais informações seriam conseguidas facilmente no posto de alistamento, mas satisfarei tua curiosidade. O pagamento é pequeno e a vantagem estará na experiência em batalha e na certeza de estar praticando o bem. Oferecemos cento e setenta moedas de cobre, da coroa de Dhar, por trinta dias, ou duas moedas de prata por um ano de serviço.
Se não tivesse dado mostras de seu caráter, eu acreditaria que o senhor zomba de mim – murmurou Seridath, fingindo indignação. – E os custos? Quem compensará?
Vestimentas e alimentação serão pagos pela Companhia. E barganhas estão fora de cogitação. O pagamento estipulado é fixo. Não haverá pilhagens.
O jovem remexeu-se na cadeira, inquieto. Agora tinha certeza que seus blefes não estavam surtindo o efeito desejado. Na verdade, ele não se preocupava muito com dinheiro. Queria a fama que somente uma espada poderia conseguir.
Muito bem, estamos interessados. Sou um cavalei...
Não queremos cavaleiros – atalhou Urso Pardo. – Só recrutamos infantaria e arqueiros.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Carta aos dinossauros - uma arqueologia da lama

Ao terminar minha segunda leitura de Carta aos Dinossauros, de José Wilson Barbosa Sales, sentia um travo na boca. O texto é denso, incisivo, contundente. Um emaranhado de sensações que se mesclam a entorpecimentos, uma espécie de exercício psicológico que busca extrair o que há de mais visceral em nosso ser.

O texto de José Wilson é heterogêneo, polifônico, embora todos os dez contos que compõem o livro assumam um tom pessoal, confessional e intimista. O olho que o narrador empresta ao leitor está entranhado na lama que compõe a psiquê humana, a sombra que dá forma aos nossos pavores e sonhos, numa espécie de cartografia primordial. Assim, cada narrativa acaba por ser uma faceta de um mesmo prisma que se desdobra em outras possibilidades, variações de temas similares se atravessando.

A transversalidade, portanto, presente no conjunto que compõe esse excelente Carta aos Dinossauros funciona como uma liga que sedimenta a obra, tornando-a primorosamente equilibrada. Dessa forma, é possível constatar a potência e o fôlego deste escritor.

Os contos presentes no livro levantam questões sobre a memória, a infância, as descobertas, o sexo. Cada conto tem um ritmo próprio, evitando assim a monotonia que acompanha muitas obras do gênero. Do menino da fazenda descobrindo os caminhos do sexo ao homem maduro que busca redescobrir o prazer com sua mulher, os contos apresentam personagens profundos, sujeitos aturdidos diante do absurdo de uma existência sem sentido e que buscam através da linguagem um outro viés, uma nova significação para suas vidas.

O melhor exemplo seria o conto que empresta o título à obra e a fecha. Este conto envereda-se por um caminho que passeia entre a narrativa fantástica e o fluxo de consciência, onde uma cidade titânica aos poucos vai sendo transformada pelos sentimentos de seus habitantes, que por sua vez têm seus corpos profundamente alterados pelo ambiente.

Todos esses elementos conjugados tornam Carta aos Dinossauros uma obra equilibrada mas contundente, um mapa arqueológico dos pedaços de sombra que compõem a alma humana.


Ficha Técnica

Edição: 1
Editora: Orobó Edições
ISBN: 9788587151186
Ano: 2007
Páginas: 96

quarta-feira, setembro 19, 2012

Resultado da Promoção Entrelinhas II



Amigos, saiu o resultado do sorteio. Seguem os contemplados:


Vencedor no Twitter:   
Vencedor no Blogger: Fernando
Vencedor no Facebook: Kelly Cristine

Para receber seu exemplar, basta entrar em contato com o e-mail medina.samuel@gmail.com e deixar seu endereço para recebimento.

Ainda falta um exemplar, já que ninguém acertou a postagem mais popular do mês de agosto. Por isso, resolvi deixar o jogo aberto até o final de setembro, quando revelarei qual é o bendito post.

Deixo aqui meus parabéns aos ganhadores!

segunda-feira, setembro 17, 2012

Seridath - Parte II de II

Ir para Seridath - Parte I de II


Assustado com a aproximação do outro, o rapazinho ergueu o trêmulo arco, sem força para ao menos retesá-lo. Koen achou aquilo muito engraçado. O garoto estava com medo, sabia que iria morrer, mas mesmo assim decidira não fugir como fizera seu último companheiro.
– Não temas. – disse, Koen, quase amigável – Se não me atacar, não irei matá-lo. Talvez.
O garoto engoliu em seco, enquanto Koen ria, sombriamente deliciado com seu próprio gracejo.
– Vo-você matou Rerfard! – Observou o rapaz, admirado.
– E isso é importante? – desdenhou o outro.
– Si-sim. Ele é o mais forte, quem... quem manda... mandava por aqui.
– Bem, creio que não mais o seja. Você não parece ter experiência nesse ramo. O que fazia com aqueles bandidos?
– E-eles obrigam seus escravos a lutarem, senhor. Eu fui levado há três meses de uma aldeia bem ao sul daqui... Mataram todos... Só me deixaram viver porque eu sou bom com o arco.
– Mas mesmo assim você não impediu que eu matasse seu senhor. – observou Koen, com severidade, mas também com uma gota de gracejo em sua voz – Matei seu senhor, agora sua vida me pertence. Quer viver?
O jovem balançou afirmativamente a cabeça. Koen ficou por um bom tempo calado, absorto. Havia feito uma descoberta. Todo o cansaço que o perturbara durante a viagem havia desaparecido. Estava descansado e bem disposto, como se tivesse dormido por uma noite inteira.
– Se-senhor? – inquiriu o rapazinho, timidamente. Sua voz revelava o temor de que o outro tivesse mudado de idéia, ou estivesse apenas brincando com sua vida.
– Pois bem. – retrucou Koen, despertando – Será meu pajem, meu escudeiro. Qual o seu nome?
– Aldreth.
– Parece ser um bom nome. Certo, Aldreth. Como meu servo, quero você desça desse cavalo e ajoelhe-se aqui.
O rapaz aproximou-se e ficou de joelhos aos pés da montaria de Koen, que permaneceu em sua pose altiva.
– Jure. – ordenou.
– Ju-jurar? – garoto olhava temeroso o chão, sem ter coragem de erguer a cabeça.
– Jure que irá me servir.
– Mas... mas escravos não juram.
– Não importa. Se quer viver, faça um juramento.
– Eu juro.
– Jura o quê?
– Eu juro... juro servir ao senhor e... ser o vosso servo.
– Muito bem. – aprovou Koen – Quero que retire o dinheiro e as armas dos mortos. Pode levar o que quiser, mas eu quero as roupas negras daquele ali. – apontou para o líder – E quero que estejam limpas.
Aldreth ergueu-se para seguir as ordenanças do seu novo amo. Mas antes deu meia-volta, aproximou-se novamente de Koen e ajoelhou-se mais do que a primeira vez, até tocar a testa ao chão:
– Senhor, peço misericórdia pelos companheiros mortos. Peço que me deixe enterrá-los.
– Eles o raptaram, o escravizaram e ainda quer enterrá-los!? – perguntou Koen, maravilhado.
– Por Rheena e sua misericórdia, peço para enterrá-los, senhor! – repetiu o rapaz, com obstinação.
– Está bem. – respondeu, irritado – Vá logo! E não fale mais em deuses na minha presença.
O resto da tarde Aldreth passou usando uma das espadas dos mortos para chafurdar na lama e fazer covas para seus três antigos companheiros. Mas para a surpresa de Koen, ele fez o serviço com rapidez. Findava a tarde quando o garoto trouxe as vestes de Rerfard, o líder do bando, para que Koen pudesse usá-las. Pela compleição forte e robusta, as roupas couberam muito bem no jovem. Aldreth, porém, não pegou nada para si, além de uma das espadas. Nas garupas dos cavalos encontraram mantimentos e duas cotas de malha. Também havia dois escudos amarrados no cavalo de Refard e outros dois no de Driscol, o segundo no comando. Ele fora o último a ser morto por Koen.
Os dois reuniram os objetos e os cavalos e partiram quando já escurecia. Segundo Aldreth, havia mais a leste uma caverna onde o bando mantinha seu esconderijo. Poderiam abrigar-se naquele lugar. Enquanto voltavam suas montarias na direção indicada por Aldreth, ele timidamente olhou para seu amo e perguntou:
– E tu, senhor, como chamarei?
Koen recebeu aquela pergunta como um soco. Fazia tanto tempo que não pronunciava seu nome, que não se sentia mais Koen. Aquela luta havia selado o nascimento de um guerreiro. Deveria ser outro, ter outro nome. Depois de alguns segundos pensativo, voltou a cabeça para Aldreth e respondeu:
– Sou Seridath, o Cavaleiro Negro.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Promoção Entrelinhas II

Bem, pessoal, aqui estou para anunciar um novo quadro no blog. Alguns devem ter percebido a mudança no endereço. Sim, agora o blog tem um domínio próprio. Isso não irá impactar os links que já existem, pois o Blogger.com irá redirecionar automaticamente para o endereço atual.

Outro ponto importante é que estou lançando uma promoção para divulgar o blog, buscando assim conquistar novos leitores. Atendendo às sugestões da última enquete, a promoção ocorre num misto de sorteio e jogo. 

Daqui a duas semanas, ou seja, dia 18 de setembro, farei um sorteio do livro Entrelinhas II para todos os leitores. Serão na verdade três sorteios: um para os seguidores diretos do blog, outro para aqueles que curtiram a página no Facebook e por último aqueles que seguem o perfil do Twitter. Além do sorteio, o jogo será adivinhar qual é a postagem mais popular do mês de agosto, considerando-se o número de acessos. O primeiro que acertar ganhará automaticamente o livro e não poderá participar dos sorteios.

O método de sorteio será através de um número aleatório gerado pelo site http://www.random.org/.

Para participar é necessário comentar este post, como forma de inscrição, além de atender às regras abaixo:

Sorteio:

1. Ter o endereço no Brasil;
2. Seguir publicamente este blog OU curtir a página deste blog no Facebook (https://www.facebook.com/OGuardiaoDeHistorias/) OU seguir o perfil deste blog no Twitter (http://twitter.com/nerito_blog/).

Brincadeira:

Comentar este post, respondendo à pergunta: Qual é a postagem mais popular deste blog?

Importante: 

  • Ao participar da promoção, o leitor autoriza expressamente a divulgação de seu nome no blog;
  • Os prêmios não são cumulativos, ou seja, cada participante poderá ganhar somente um livro.



O resultado será postado dia 18/09/2012. Os vencedores deverão enviar seu endereço mediante contato posterior.

Para conhecer mais sobre o livro Entrelinhas II, acesse sua página no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/245918-entrelinhas-2

Conto com a participação e divulgação de todos!

segunda-feira, setembro 03, 2012

Seridath - Parte I de II

Ir para A Espada - Parte II de II

Fonte: AutoRealm



Koen vagara por terras imersas em sombras. Como quem desperta de um pesadelo, ele agora pousava diante daquela encosta enlameada, tendo atrás de si as montanhas sombrias. Quando criança, soubera o que significava a palavra "sorriso". Dera valor a palavras como essa. Agora, tudo isso soava-lhe como superstição antiga e já morta. Koen era outro, seus claros olhos azuis eram envolvidos por uma frieza impiedosa. A visão da grande montanha imperava em sua mente. A montanha e a espada. Seu prêmio. Uma lâmina que lutaria por ele e o serviria como uma amante, como protetora, como fonte de força. Lorguth. O nome que ocupava todos os seus pensamentos. "Você é minha, Lorguth".
O forte som do metal chocando-se fez Koen despertar de seu devaneio. Sua espada já fazia seu trabalho. Surpreso, descobriu-se empunhando a lâmina negra, defendendo com perícia o golpe do líder do bando. Um segundo bandido, com uma lança, veio pelo lado direito e estocou com energia. Dando um impulso ágil para trás, Koen tirou o corpo, escapando por um mero instante da afiada estaca, que perfurou sua capa de um lado a outro. Gingando para a direita, deixou que a capa fosse destruída, enquanto fazia a espada deslizar pelo cabo da lança até alcançar o pulso esquerdo de seu agressor. O corte foi profundo e, enquanto o homem gritava, Koen puxou o braço do cavaleiro e usou o próprio inimigo para subir ao cavalo. Terminou seu serviço passando o fio serrilhado no ventre do bandido, que soltou um grito assustado e ofegante, enquanto tentava segurar as vísceras que ameaçavam sair.
Koen, com um muxoxo, jogou o homem para a esquerda, deixando-o tombar do cavalo, e tomou o seu lugar. Os outros bandidos olhavam atônitos. Pedaços da capa rasgada ainda o cobriam parcialmente, mas agora seus agressores podiam ver que se tratava de um jovem de ombros largos e braços fortes. Os cabelos negros e lisos eram volumosos e estavam bem sujos e compridos, cortados de forma irregular na altura dos ombros. Os olhos, carregados de um azul intenso, transmitiam pura frieza. Seu rosto era marcante, com uma barba bem rala cobrindo o queixo estreito, felino. Olhava para seus inimigos como uma fera observa sua presa.
O homem derrubado do seu cavalo jazia ao chão, com o sangue a misturar-se na lama. Ainda atônitos, os homens apenas observavam o rapaz como se fosse um fantasma, uma sombra amaldiçoada que escolhera brincar com eles. Mas Koen já movia as rédeas do animal rumo ao líder. Perplexo, o homem sentiu-se inclinado a fugir, admitindo que subestimara o jovem misterioso que cavalgava em sua direção. Mas ainda havia seus homens, seu bando, sua reputação. Pelo seu orgulho, não fugiria. Partiu com fúria contra o jovem.
Quando se cruzaram, Koen pôs sua espada na posição vertical, bloqueando com um canglor o corte horizontal da lâmina do inimigo. Tirando o golpe do adversário, ele moveu seu braço num semicírculo, atingindo com rapidez a nuca do oponente antes que os cavalos dos dois acabassem de se cruzar. Tudo aquilo ocorrera em um segundo; logo depois o líder pendia do cavalo, semi-decapitado.
Koen não se permitiu observar o derrotado e agonizante inimigo. Girou a lâmina da espada contra suas costas, do lado esquerdo do cavalo, um movimento que exigia tanto força quanto perícia. A ponta da espada foi bater firme no rosto de outro oponente, que tentara pegar o rapaz pelas costas. O homem ergueu a mão esquerda, que antes segurava a rédea do cavalo, tentando amparar o corte no rosto. Koen voltou energicamente sua montaria na direção do oponente ferido e enterrou a espada em seu peito.
Faltavam somente dois. Um deles largara sua lança rústica e fugia a galope, enquanto o outro se mantinha parado, a alguns metros de distância, segurando debilmente seu arco com mãos trêmulas. Koen aproximou-se calmamente. Percebeu que era o rapazinho louro e mirrado. Parecia ser mais jovem que o próprio viajante cinzento; não deveria ter nem quinze. Seus cabelos eram muito lisos e escorridos. Tinha a magreza daqueles que sempre trabalharam duro na vida, mas um rosto belo. Os seus olhos verdes eram dóceis e mantinham-se atentos, amedrontados. Mas isso não seria problema para Koen se tivesse que matá-lo. 

Continua...